__ Como é possível aplacar a dor de ser só?
Sentou-se em frente ao computador, as lágrimas ainda manchando as lentes rachadas dos óculos velhos, e murmurou para si mesmo. Como é possível? Por nunca se sentir completo; por nunca ter conhecido satisfação com a vida, entregava-se – verdadeiramente, profundamente – as vidas dos outros, a que assiste incessantemente no computador.
E depois chora, ouvindo as mesmas músicas que o condenam. Foi estragado. Desde criança, mimaram-no: não seus pais – nunca os teve – e, sendo o mais velho de uma família em ruínas, não teve irmãos ou exemplos nos quais obtivesse conforto. Não. Foi mimado pela música pop em um idioma que tivera de aprender só e pelos filmes de hollywood. Pelas histórias alheias, cheias de sentido, cheias de paixão, de amor, de dor, de realizações, de significado. Foi ludibriado pela mais idiota das mentiras. Acreditou no amor. Acreditou na plenitude. E deu-se com a filosofia.
E – Deus! – de todas as coisas que podia ter gostado, foi-se para as bandas de um romantismo idealista, que o fazia acreditar em tudo, mas ainda mais em si mesmo. Tinha fé, o pobre diabo. Tomava goles de vinho diretamente da garrafa enquanto sonhava. Qualquer coisa. Não vivia: imaginava-se. Uma amiga recomendou-lhe terapia, mas era muito orgulhoso para deitar-se num divã de um charlatão qualquer. Viu na internet que poderia ser depressivo – a wikipedia ainda não diagnosticava mediocridade – mas a vaidade impedia-o de buscar qualquer ajuda. Sempre fora só, e ainda que tal fosse a manjedoura de sua infelicidade, se abdicasse dessa verdade, se abrisse mão da única narrativa de sentido que conseguira estabelecer para sua vida (e não via outro significado para entrar no paradigma da pós-modernidade, que nada mais é do que deixar-se afundar em muletas de existência em cápsulas, com nomes esquisitos e um rótulo preto sobre o fino papelão) estava irremediavelmente perdido.
__ Como é possível aplacar?
Matutava sem sucesso. Todas as noites, em madrugadas indiferentes, mexia de um lado ao outro buscando a mesma resposta. Que resposta? Não saberia dizer. Em vão procurou e, ao final, por ser pobre, deu-se por vencido. E foi estudar – pra ser “gente na vida”, como a mãe lhe ensinara. E afundava-se. Afundava-se porque, sabendo-se medíocre, entendia melhor que qualquer um o paradoxo do seu discurso, de suas ações, de sua vida. Como beber dessa bebida amarga? Como aceitar que, vazio, vivia uma existência igualmente vazio. Desumano, mas não conseguia gritar – tinha vergonha de incomodar os vizinhos. Enganava-se enganando aos outros. E, mentindo, existia.
Até que o álcool acabou. E, sentindo-se só, foi tomar banho. E saiu, para mentir mais e, quem sabe, existir por uma noite.
__ Como é possível?
__ Como?
E se foi.